Artigos e Entrevistas

Marcas Da Infância

Eva Furnari

Eva Furnari nasceu em Roma, Itália, e veio para o Brasil com apenas dois anos de idade. Costuma dizer que, desde criança, sentia-se encantada com as figuras dos livros e sua distração era desenhar e pintar. Formou-se em arquitetura, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi professora de desenho, pintura, escultura e gravura no Atelier de Artes Plásticas do Museu Lasar Segall e ilustradora em diversos jornais e revistas. Sentindo-se atraída pela literatura infantil, começou a criar a “ilustração narrativa”, destinada a crianças bem pequenas. Esses primeiros trabalhos foram lançados na coleção Peixe Vivo, da Ática. De lá pra cá, são inúmeras as publicações de Eva Furnari, como ilustradora e escritora. Nos últimos anos, aventurou-se pelo teatro e, juntamente com a Companhia Truks, levou ao palco sua personagem mais famosa: a Bruxinha!

Pré-Texto: Fale de sua infância e de como ela permanece viva nas suas histórias.
Eva Furnari: Sem dúvida nenhuma a infância nos deixa marcas para a vida toda. Eu fui uma menina calada e tímida que entendia o mundo muito mais pelo olhar que pelas palavras. Essa foi uma das marcas que permaneceram fortes no meu trabalho, nas histórias sem texto. A outra coisa que me lembro eram as longas discussões entre meus dois irmãos mais velhos, que hoje são engenheiros, mas na época eram cientistas-filósofos. Discutiam de tudo: matemática, física, filosofia, literatura, artes e também, porque não, sobre Deus e o sentido da vida. Lembro que uma das polêmicas era se as pessoas enxergavam as cores da mesma maneira. Será que o vermelho que um enxerga é igual ao do outro? Essas “termináveis discussões, nas quais eles nunca estavam de acordo, eram, de certa maneira, uma matéria prima fértil para mim, um grande caldeirão onde eu mergulhava com minha fantasia e imaginação. Eu acompanhava atenta essa competição de duas mentes brilhantes que se desafiavam no pensar lógico e estruturado da ciência e na sensibilidade da intuição. Sem dúvida, essa escola foi fundamental para minha formação e para meu ofício posterior de escrever e ilustrar livros.
Pré-Texto: Como é o seu processo de criação?
Eva: Só se pode intuir, desconfiar e até inventar algum jeito de cortar como se dá a criação. Mas explicar mesmo, direitinho, não se explica.
Creio que cada pessoa tem um processo particular. Para mim, esse processo exige concentração e isolamento. É necessário que eu preste atenção para fazer uma espécie de conexão com o mundo interior. É como se nesse momento eu tomasse um caminho que leva ao universo dos sonhos. Mas é algo nebuloso que não se pode definir e nem explicar tão bem.
Pré-Texto: De onde vêm tantas bruxinhas charmosas e de que modo você acredita que elas cativam o público?
Eva: Ás vezes eu tenho a impressão que os seres que habitam o tal universo dos sonhos é que escolhem a gente e não vice-versa.
Quem sabe foi a Bruxinha quem me escolheu. Já imaginaram? Se for assim, tenho a maior admiração e orgulho, não só da amizade dela, mas também de ser a pessoa que pode retratá-Ia com meus desenhos para que todos possam vê-Ia. Talvez a Bruxinha cative o público por ter essa característica tão humana de ser atrapalhada e também de ter o poder da magia. Quem é que não deseja transformar o mundo ao seu redor? Na verdade o ser humano também tem a capacidade de se transformar, tanto para o bem como para o mal. Graças a Deus, a Bruxinha é do bem.
Pré-Texto: Qual é a importância da literatura para a formação da criança?
Eva: Acho que a literatura reúne qualidades que podem ajudar muito nos processos educacionais. Através dela pode-se ensinar a ler e escrever, pode-se desenvolver as capacidades lógicas e críticas e também passar os valores humanos tão necessários na formação da criança. Uma das características que constitui a literatura é que seus conteúdos são passados não só de maneira racional, mas também emocional, fato que promove um envolvimento muito mais abrangente e efetivo.
Pré-Texto: Como suas histórias são recebidas pelos leitores mirins e adultos? Conte alguma experiência Pedagógica interessante desenvolvida a partir de uma obra sua.
Eva: Sinto que minhas obras são muito bem recebidas pelos adultos também, como se elas não fossem só para crianças e isso me dá uma grande alegria.
No livro "Nós" da Editoral Global, uma professora fez um trabalho com as crianças que achei genial. A proposta era fazer colagem de borboletas sobre dois painéis de papel craft. No primeiro as borboletas deviam ser todas iguais. No segundo a professora distribuía materiais bem variados e pedia que cada aluno fizesse a borboleta que quisesse, estimulando uma produção bem personalizada, (borboletas grandes, pequenas, fortes, delicadas, coloridas, escuras, etc.) Depois acontecia um debate diante desses dois painéis sobre a riqueza, alegria, fertilidade do painel com borboletas variadas e a pobreza do painel as borboletas todas iguais. Achei esse trabalho muito interessante para provocar a aceitação das diferenças e a diminuição dos preconceitos e da discriminação que tanto sofrimento podem causar.
Pré-Texto: A leitura é uma espécie de felicidade como dizia Jorge Luís Borges?
Eva: Para alcançar essa felicidade é preciso escolher os bons livros. Num bom livro, com certeza, a leitura é uma grande felicidade e vai além, ela pode nos tornar mais humanos quando partilhamos de maneira estética nossas alegrias, nossas dores e nossos saberes.