Artigos e Entrevistas

Fascinada Pelo Computador

Ângela Lago

Ângela Lago nasceu em Belo Horizonte, já morou na Venezuela, na Escócia e faz vinte anos que escreve e ilustra livros para crianças. Expôs seus trabalhos em muitos países e teve livros publicados até no Japão. Ganhou prêmios na França, Espanha, Eslováquia, Japão e Brasil, inclusive o Jabuti, com o ABC Doido. Única ilustradora brasileira selecionada para integrar uma obra que reúne autores de vários países, Anela recebeu uma homenagem especial da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil durante o 6.º Salão FNLIJ do Livro para crianças e jovens no MAM. Foi a primeira ilustradora do país a montar uma homepage (www.angela-lago.com.br) que não pode deixar de ser visitada, principalmente pelas crianças!

Pré-Texto: Como surgiu o desejo em trabalhar com a ilustração de livros para crianças e jovens?
Angela Lago: Quando estudava desenho gráfico em Edimburgo escolhi alguns contos de fada para fazer meu trabalho final em ilustração. Sempre gostei de contos de fada. Acho que foi então que decidi contar e desenhar histórias para crianças, de maneira a aliar duas atividades que já vinha exercendo: escrever e pintar.
Pré-Texto: A contemporaneidade trouxe uma soberania da imagem em relação às demais linguagens. No entanto, sabemos que somos, a maioria, analfabetos visuais. Como a ilustração do livro para crianças e jovens contribui' na formação do leitor crítico de imagem?
Angela: A leitura de um livro com imagens implica em reconhecer os signos que denunciam o caráter dos personagens, o significado das ações, e a seqüência da história através das páginas. No livro, de uma maneira diferente de outras mídias como a televisão ou o cinema, o tempo de leitura das imagens é estipulado pelo leitor, o que pode favorecer – não obrigatoriamente – um olhar mais reflexivo. Além disso grande variedade de estilos das , ilustrações nos livros para criança pode, quem sabe, ajudá-Ia a sofisticar sua apreciação estética.
Pré-Texto: Em seu livro O Cântico dos Cânticos, poema visual sobre o amor inspirado no texto bíblico de mesmo nome, você utilizou as iluminuras (desenhos utilizados na idade média para ilustrar os livros religiosos). Em seu livro Cena de rua, onde apresenta a condição assustadora e desumana da criança de rua, você utilizou o expressionismo (linguagem artística que enfatiza a emoção). Em A raça perfeita, para discutir a manipulação genética, você utilizou a manipulação digital. Qual a importância de usar a expressão plástica como metáfora do tema abordado?
Angela: Foram escolhas intuitivas. Convinham ao tema, favoreciam o clima da história.
Pré-Texto: O humor é uma característica marcante na maioria dos seus livros. Qual a importância do humor na literatura para crianças e jovens?
Angela: Não acho o humor necessário no conto para a criança. Os contos de fadas são dramáticos e são perfei­tos. Ter que vencer medos, bruxas e dragões para ir de encontro à grande aventura amorosa não é tarefa para risos. Mas as crianças adoram estes contos e com ra­zão: são pérolas. Alguns livros infantis contemporâneos pecam por um excesso de humor, muitas vezes dirigidos mais para o leitor adulto do que para a criança mesmo. Parece que os escritores e ilustradores se envergonham do que falam ou desenham e precisam fazer gracinhas. Espero que o humor que por acaso me escapa não tenha nada a ver com isso.
Pré-Texto: Já faz tempo que você utiliza programas gráficos para produzir suas ilustrações. Como é sua relação entre a "cyber-prancheta" e a prancheta convencional? Você acredita que há uma tendência dos ilustradores largarem o lápis e o pincel e aderir definitivamente à produção de imagens através dos pro­gramas gráficos?
Angela: Imagino que cada ilustrador continuará a es­colher o suporte da sua preferência, pois não importa nada para a criatividade e beleza do seu trabalho se seus pincéis são pincéis convencionais ou digitais. Caso faça seus desenhos sobre o papel ou tela, em algum momento seu trabalho será levado para o computador para ser conjugado com o texto. Se o ilustrador domina também os recursos de diagramação a possibilidade de fazer um livro onde imagem e texto se relacionem de uma maneira mais criativa fica evidentemente maior.
Eu continuo fascinada pelo computador. É a primeira coisa que ligo assim que acordo. Acho difícil até pensar sem ele. Mas isso é um vício, não um mérito.
Pré-Texto: Seu site (www.angela-Iago.com.br) tem uma particularidade que chama a atenção: além de instrumento de divulgação de seu trabalho, comum aos demais sites, tem um foco na educação. Espaço para professores, com oficina, artigos, bibliografia, e espaço para as crianças, com brincadeiras, adivinhas, tangolomango, e outras atividades lúdicas. Como você vê a relação do ilustrador do livro para crianças e jo­vens com a educação, com a formação da criança e do professor leitores?
Angela: O espaço para professores no meu site só apa­receu recentemente e porque havia uma demanda neste sentido. Mas não dissocio prazer de aprender. Um tangolomango é divertido e nos ensina os números, mesmo que de trás para frente. As adivinhas são em geral desafios a maneira convencional de pensar. Brincamos para aprender. Um ilustrador sabe disso, pois se não brincar seu trabalho não acontece. Ele ensina através do seu trabalho que precisamos a cada momento aprender e reiventar o mundo através da nossa própria criatividade.