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Entrevista - Maristella Angotti

Doutora em Educação pela Universidade de Santiago de Compostela, doutorado e mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, Maristela Angotti é professora assistente de doutor da FCL/UNESP/Araraquara, com atuação no curso de Pedagogia. Tem experiência na área de Educação, com ênfase nos processos de ensinar e aprender, e nas questões atinentes a formação e atuação do educador infantil e os direitos da infância. Atua, principalmente, nos seguintes temas: Educação Infantil, Formação de Professores e Educação.

Pré-Texto: Como você combinaria as duas expressões: educar o aluno e educar o professor?
Maristella Angotti: Ambas as propostas educativas são importantes, devem ser tratadas com seriedade, respeito e compromisso diante da sociedade. Há que se implementar uma reciprocidade nos processos formativos. Assim pensando, tudo aquilo que se propõe enquanto finalidade e objetivos para um, no caso as crianças, deve ser realidade na formação do outro, no caso o professor formador. O que estou querendo dizer é que pensar na educação do aluno e pensar na educação do professor, combinar as duas expressões tenha uma questão fundamental de fundo que é da utilização dos mesmos princípios para as duas formações, ou seja, se penso, por exemplo, que meu aluno deva ser crítico, participativo, ousado, aguçado intelectualmente, criativo... não tenho a menor dúvida que o professor que irá formá-lo também deva ter vivido o gosto da experiência em seu processo formativo de todos estes propósitos. O princípio subjacente é o de vivenciar enquanto futuro professor o que se espera desenvolver com as crianças, os alunos que futuramente estiverem sob a sua responsabilidade.
Pré-Texto: Qual a importância da educação infantil no cenário educacional brasileiro? Maristella: Atualmente, pensar a Educação Infantil significa reconstruir a infância, repensar a pessoa e a sociedade na qual ela está inserida e, sobretudo, ter a certeza de que precisamos rever todas as concepções existentes e implementadas que consideravam a Educação Infantil como deposito de crianças, ou como medida compensatória de capital cultural, ou mesmo de período proprício para a alfabetização no sentido estrito da leitura e da escrita. O conhecimento científico sobre a criança, sobre seu desenvolvimento e potencial mudou muito no último século. Não podemos deixar de entender esta etapa educacional como sendo o período de “alfabetização no mundo do conhecimento”, e isso inclui o autoconhecimento e as condições para utilização dos mecanismos de comunicação e expressão da criança. Assim, levados necessariamente a pensar nas vivências, nas aprendizagens experiênciais decorrentes da ação da criança na utilização de seus órgãos dos sentidos e das diferentes linguagens para que o ser pessoa possa vivenciar, ler, elaborar e exteriorizar seus conhecimentos sob diferentes possibilidades advindas da arte (as diferentes linguagens sendo utilizadas na educação como condição de propiciar desenvolvimento integral, de corpo inteiro a criança). A importância da Educação no cenário educacional brasileiro está na perspectiva de se entender melhor a realização infantil, o desenvolvimento integral da criança, bem como as reais possibilidades de intensificar a participação da mesma em seus contextos educativos, tornando-a protagonista de seu processo educativo e de seu mundo.
Pré-Texto: Como você avalia a formação dos professores? Quais os compromissos que o educador precisa ter com a criança nas séries iniciais?
Maristella: Penso que muito se tem falado em termos da formação de professores e pouco se tem investido em projetos conseqüentes de formação.
Uma das questões que tem me intrigado muito e que tem direcionado minhas pesquisas diz respeito a seguinte relação: nunca se falou e investiu tanto na formação de professores e se obteve tão poucos resultados em termos de aprendizagem e desenvolvimento do educador e conseqüentemente das crianças. Contradição intrigante decorrente da fusão de vários fatores dos quais eu ousaria destacar:
• A falta de consideração sobre a aprendizagem e o desenvolvimento do adulto que mecanismos são estes e como ocorrem?);
• O entendimento de que a educação, a formação de professores não passa de uma mercadoria e que possa ser vendida sem critérios e de maneira pouco conseqüente no sentido de uma perspectiva mais significativa em termos dos resultados que se busca para a pessoa e a sociedade na qual está inserida;
• A ausência de vontade política para que a educação dê certo e que permita à sociedade a sua emancipação;
• E não poderia deixar de citar a EAD.

Cabe aqui um destaque. Não se pode deixar de relacionar a forte inserção da EAD (Educação a Distância), instrumento que seria fundamental em Estados e localidades com ausência de instituições formadoras na modalidade presencial e que, do meu ponto de vista, poderia ser utilizado em cursos de formação continuada ou contínua em serviço, mas nunca na formação básica, inicial de professores, conforme já o defenderam várias plenárias de importantes eventos em nosso país. Não consigo identificar e creio que as instituições que estão implementando as propostas de EAD não revelam seus compromissos com bases teóricas específicas, além de não identificar em boa parte da produção científica sobre a formação de professores as justificativas para sua implementação como condição de melhoria dos processes formativos e do desenvolvimento profissional docente. Ou seja, ao que parece esta modalidade de ensino semipresencial ou à distância revelam forte interesse na educação enquanto mercadoria, sem que as instituições precisem investir na qualidade das relações interpessoais (característica fundamental das práticas educativas), e nem tampouco em bibliotecas, o que significativa um grande empobrecimento na formação e a implementação de princípios e experiências bastante díspares das que serão propostas às crianças na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental. É fato, ninguém oferece o que não tem, o que não acredita ser importante. Penso que importante o estabelecimento da pergunta: como os professores favorecerão as relações interpessoais, as trocas, as interações, as mediações se estes não foram elementos considerados importantes em seu processo formativo? Quais serão as teorias que estarão fundamentando as práticas, consideradas?
Pré-Texto: Considerando publicação se dirige a educadores, perguntamos: como organizar as atividades individuais e coletivas em séries iniciais?
Maristella: Nas duas modalidades de atividades citadas é importante sempre oportunizar a elaboração, a contribuição singular de cada criança, o reconhecimento de que ela é uma fonte de conhecimento e que tem o que oferecer ao grupo no qual está inserida da mesma forma que dele pode tirar proveito. Ou seja, é preciso que a criança tenha condições, motivação, interesse em participar das atividades e que possa oferecer contribuições a partir de suas próprias elaborações.
O princípio da atividade, tão definido por vários autores clássicos da educa sendo um elemento a ser considerado nas práticas didáticas, nas práticas educativas individuais e coletivas.
Pré-Texto: Jogos, atividades lúdicas, exercícios de linguagem: que outras estratégias o professor pode lançar mão para trabalhar na educação infantil?
Maristella: Inicialmente eu diria precisamos implementar as os exercícios de linguagem que na maioria das vezes fica restrito à linguagem oral e escrita.
Acredito e defendo a necessidade de entender desenvolver a criança de corpo inteiro, como defenderia Ana Angélica Albano (UNICAMP), assim o foco se alastraria para as linguagens musical, cênica, plástica...
Gosto muito de pensar também no trabalha com a literatura infantil, com as aulas passeios, com a proposta de tateamento experimental conforme o proposto por Freinet, estratégias de forte apelo exploratório e por meio do qual as crianças teriam a oportunidade de elaborar e confirmar suas hipóteses na experimentação de mundo. Mas, sem dúvida nenhuma uma das mais importantes questões em qualquer estratégia ou atividade é o cultivo da qualidade nas relações interpessoais “a pessoa e o outro” devem ser sempre respeitados em seu processo de interação, ouvidos e considerados nas práticas educativas e na qualidade a elas impostas.
Pré-Texto: São suficientes os recursos investidos na educação infantil? Faça uma análise das políticas públicas e a gestão de recursos para as séries iniciais?
Maristella: Estamos vivendo um momento de transição no financiamento educacional, é tem,pó de implementação do FUNDEB no sistema público e a ampliação do Ensino Fundamental para nove anos. Qualquer análise poderia ser precipitada neste momento, sobretudo pela disparidade com que a Educação Infantil é tratada em comparação com o Ensino Fundamental. Sabemos que historicamente o dinheiro para a Educação Infantil é irrisório e não tem sido muito bem empregado. Isso ocorre no Ensino Fundamental também, apesar de ter sempre uma determinação orçamentária maior em decorrência de seu caráter de direito público subjetivo, obrigatório de ser oferecido. É importante necessário destacar a possibilidade legal de gestão democrática e a elaboração de projeto político-pedagógico nas instituições e sistemas, pois isso poderá favorecer prioridades em termos de investimentos e um controle maior sobre os mesmos. Preocupação fundamental deverá ser a qualidade nas relações, nos diálogos a serem estabelecidas entre instituições (unidades educacionais), família e até mesmo com a comunidade, definindo de fato a co-responsabilidades diante da educação, bem como a possibilidade de rever a importância das etapas educativas para o desenvolvimento pessoal e da sociedade. Penso que poderemos, caso tenhamos interesse e boa vontade, desvendar uma nova perspectiva para a Educação e para as nossas instituições, formando cidadãos mais íntegros e uma sociedade mais humanitária e culta, com investimentos direcionados e controlados pelos atores educativos que nela estão inseridos.
Pré-Texto: Fale sobre o ensino fundamental de 9 anos: desafios e perspectivas. Maristella: Sou uma fiel defensora da infância e do que podemos realizar com a criança da faixa etária até os seis/sete anos de idade sem formalizar as práticas educativas que podem gerar corpos calados e aprisionados em um corpo que deveria ser liberto. Não sou favorável ao Ensino Fundamental de 9 anos, sobretudo pela ausência de justificativas pedagógicas que o fundamente; também não defendo a utilização do sistema educacional para compensar direitos do cidadão que não estão sendo oferecidos regularmente, políticas públicas que deveriam ser tratadas maneira integrada e que se perdem em ações isoladas e que tendem a descaracteriza o papel da escola em sua essência formativa.
A escola, Ensino Fundamental tem sido imputado um caráter de redenção diante da incompetência política na garantia dos direitos e isso precisa ser revisto. Diante do fato dado da aprovação do Ensino Fundamental de 9 anos precisamos fazer o melhor. Creio que seria absolutamente salutar e enriquecedor para o processo pedagógico que pudéssemos inserir atividades, movimento, participação, lucidade no ensino fundamental, estruturando tempos e espaços para que as crianças pudessem agir, interferir mais e se tornar protagonistas de seu próprio processo formativo.
Quem sabe não conseguimos inserir espaços para a literatura infantil, para as linguagens (musical, cênica, corporal, plástica...), para as descobertas, para o movimento, para a alegria e realização. Adequar as instituições para receber e acolher bem as crianças de 6 anos em suas características e irradiar as boas perspectivas da educação infantil para o ensino fundamental, creio que seja um grande desafio e uma das melhores perspectivas para os mesmo.
Pré-Texto: Gostaria que você definisse que percepção tem do aluno de hoje, da criança de hoje, inserida em uma cultura que valoriza consumo e banaliza a violência.
Maristella: A criança de hoje tem que ser vista como ser humano que está inserido em uma cultura individualista, egoísta, cultura cujos seus membros não têm a dimensão de como seus atos influem a infância e a sociedade de amanhã. De fato, nossas crianças estão passeando em áreas comerciais, assistindo inúmeros programas de TV que as entende como consumidoras, jogando videogames violentos diante de computadores que as imobiliza, dificulta e compromete.