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Artigo - AUTO-ENGANO

“Os livros de auto-ajuda surgiram no final do século XIX, dentro de uma conjuntura em que o pressuposto da igualdade jurídica e da liberdade alavancava o sonho de consumo de preceitos, regras de felicidade, motes de harmonização da vida cotidiana bem como regras de conduta para a plenitude da vida humana”
Arquilau Moreira Romão

Os tempos de neoliberalismo, marcados pelo efeito de um novo estatuto de liberdades, combina bem com o boom da literatura de auto-ajuda. É certo que essa roda não é inventada hoje, ou melhor, que os livros de auto-ajuda surgiram no final do século XIX, dentro de uma conjuntura em que o pressuposto da igualdade jurídica e da liberdade alavancava o sonho de consumo de preceitos, regras de felicidade, motes de harmonização da vida cotidiana bem como regras de conduta para a plenitude da vida humana. Também naquele tempo circulavam ditos sobre a felicidade, sobre a realização de sonhos e projetos individuais, sobre a solução mágica de questões que atordoavam a ordem da vida cotidiana, tais como, dilemas amorosos e conflitos familiares dentre outros.
Hoje esses mesmos sentidos são atualizados em obras que têm a presunção de didatizar o comportamento humano, conferindo e transferindo ao leitor um prêmio a ser consumido. Livros que apresentam-se como arcas com tesouros de instantânea absorção disponibilizando ao consumidor uma riqueza a ser ajuntada e murmurando baixinho sinalizações de sucesso, paz, felicidade, bom relacionamento com os outros e consigo mesmo.
Como se tornar feliz no casamento, de que modo se deve educar os filhos para a felicidade, coma sem dor, modos de conquistar o sucesso nos negócios, como emagrecer sem esforço, como ter saúde e viver zen, maneiras de ensinar o aluno a ser feliz, como ouvir a luz interior e ascender aos céus ainda que com os pés na terra: todos esses títulos e outros tantos inundam as prateleiras das livrarias, abarrotando os olhos transeuntes de soluções mágicas para questões complexas como família, educação, sensibilidade, economia etc. Tais textos conservam um didatismo assustador, pois nomeiam passos, numeram atitudes, listam ações a serem seguidas por todos igualmente como se os saberes e poderes fossem distribuídos de maneira homogênea na nossa sociedade.
Mais ainda, buscam apaziguar as contradições em tempos cada vez mais complexos, realizam ai pasteurização dos dizeres silenciando a pluralidade e escamoteiam tudo quanto possa soar de perturbador e conflitante no humano. Talvez por isso vendam tanto, sejam um dos filões editoriais que mais crescem e banalizem, com receituários manualescos, fórmulas que não podem ser vividas por todos.
Uma das características marcantes dos livros de auto­ajuda é justamente o banimento da reflexão política e filosófica, afastando os leitores de um olhar crítico sobre a realidade social em que estão inseridos, privando-os de análises conjunturais que possam levar em conta as relações de poder nas quais estão inseridos e pelas quais são afetados, deixando adormecida a compreensão de seus tempo e espaço. Ignorar o político-ideológico, apagar as tensas disputas travadas nas/pelas relações sociais, desconsiderar contradições e tensões, enaltecer o império da felicidade e da realização pessoal como fruto das escolhas individuais e da vivência da liberdade plena e pura: assim, constitui-se o discurso do auto­engano.