“Os livros de auto-ajuda surgiram no final do século XIX, dentro de uma conjuntura em que o pressuposto da igualdade jurídica e da liberdade alavancava o sonho de consumo de preceitos, regras de felicidade, motes de harmonização da vida cotidiana bem como regras de conduta para a plenitude da vida humana”
Arquilau Moreira Romão
Os tempos de neoliberalismo, marcados pelo efeito de um novo estatuto de liberdades, combina bem com o boom da literatura de auto-ajuda. É certo que essa roda não é inventada hoje, ou melhor, que os livros de auto-ajuda surgiram no final do século XIX, dentro de uma conjuntura em que o pressuposto da igualdade jurídica e da liberdade alavancava o sonho de consumo de preceitos, regras de felicidade, motes de harmonização da vida cotidiana bem como regras de conduta para a plenitude da vida humana. Também naquele tempo circulavam ditos sobre a felicidade, sobre a realização de sonhos e projetos individuais, sobre a solução mágica de questões que atordoavam a ordem da vida cotidiana, tais como, dilemas amorosos e conflitos familiares dentre outros.
Hoje esses mesmos sentidos são atualizados em obras que têm a presunção de didatizar o comportamento humano, conferindo e transferindo ao leitor um prêmio a ser consumido. Livros que apresentam-se como arcas com tesouros de instantânea absorção disponibilizando ao consumidor uma riqueza a ser ajuntada e murmurando baixinho sinalizações de sucesso, paz, felicidade, bom relacionamento com os outros e consigo mesmo.
Como se tornar feliz no casamento, de que modo se deve educar os filhos para a felicidade, coma sem dor, modos de conquistar o sucesso nos negócios, como emagrecer sem esforço, como ter saúde e viver zen, maneiras de ensinar o aluno a ser feliz, como ouvir a luz interior e ascender aos céus ainda que com os pés na terra: todos esses títulos e outros tantos inundam as prateleiras das livrarias, abarrotando os olhos transeuntes de soluções mágicas para questões complexas como família, educação, sensibilidade, economia etc. Tais textos conservam um didatismo assustador, pois nomeiam passos, numeram atitudes, listam ações a serem seguidas por todos igualmente como se os saberes e poderes fossem distribuídos de maneira homogênea na nossa sociedade.
Mais ainda, buscam apaziguar as contradições em tempos cada vez mais complexos, realizam ai pasteurização dos dizeres silenciando a pluralidade e escamoteiam tudo quanto possa soar de perturbador e conflitante no humano. Talvez por isso vendam tanto, sejam um dos filões editoriais que mais crescem e banalizem, com receituários manualescos, fórmulas que não podem ser vividas por todos.
Uma das características marcantes dos livros de autoajuda é justamente o banimento da reflexão política e filosófica, afastando os leitores de um olhar crítico sobre a realidade social em que estão inseridos, privando-os de análises conjunturais que possam levar em conta as relações de poder nas quais estão inseridos e pelas quais são afetados, deixando adormecida a compreensão de seus tempo e espaço. Ignorar o político-ideológico, apagar as tensas disputas travadas nas/pelas relações sociais, desconsiderar contradições e tensões, enaltecer o império da felicidade e da realização pessoal como fruto das escolhas individuais e da vivência da liberdade plena e pura: assim, constitui-se o discurso do autoengano.
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Artigo - AUTO-ENGANO
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Entrevista - Maristella Angotti
Doutora em Educação pela Universidade de Santiago de Compostela, doutorado e mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, Maristela Angotti é professora assistente de doutor da FCL/UNESP/Araraquara, com atuação no curso de Pedagogia. Tem experiência na área de Educação, com ênfase nos processos de ensinar e aprender, e nas questões atinentes a formação e atuação do educador infantil e os direitos da infância. Atua, principalmente, nos seguintes temas: Educação Infantil, Formação de Professores e Educação.
Pré-Texto: Como você combinaria as duas expressões: educar o aluno e educar o professor?
Maristella Angotti: Ambas as propostas educativas são importantes, devem ser tratadas com seriedade, respeito e compromisso diante da sociedade. Há que se implementar uma reciprocidade nos processos formativos. Assim pensando, tudo aquilo que se propõe enquanto finalidade e objetivos para um, no caso as crianças, deve ser realidade na formação do outro, no caso o professor formador. O que estou querendo dizer é que pensar na educação do aluno e pensar na educação do professor, combinar as duas expressões tenha uma questão fundamental de fundo que é da utilização dos mesmos princípios para as duas formações, ou seja, se penso, por exemplo, que meu aluno deva ser crítico, participativo, ousado, aguçado intelectualmente, criativo... não tenho a menor dúvida que o professor que irá formá-lo também deva ter vivido o gosto da experiência em seu processo formativo de todos estes propósitos. O princípio subjacente é o de vivenciar enquanto futuro professor o que se espera desenvolver com as crianças, os alunos que futuramente estiverem sob a sua responsabilidade.
Pré-Texto: Qual a importância da educação infantil no cenário educacional brasileiro? Maristella: Atualmente, pensar a Educação Infantil significa reconstruir a infância, repensar a pessoa e a sociedade na qual ela está inserida e, sobretudo, ter a certeza de que precisamos rever todas as concepções existentes e implementadas que consideravam a Educação Infantil como deposito de crianças, ou como medida compensatória de capital cultural, ou mesmo de período proprício para a alfabetização no sentido estrito da leitura e da escrita. O conhecimento científico sobre a criança, sobre seu desenvolvimento e potencial mudou muito no último século. Não podemos deixar de entender esta etapa educacional como sendo o período de “alfabetização no mundo do conhecimento”, e isso inclui o autoconhecimento e as condições para utilização dos mecanismos de comunicação e expressão da criança. Assim, levados necessariamente a pensar nas vivências, nas aprendizagens experiênciais decorrentes da ação da criança na utilização de seus órgãos dos sentidos e das diferentes linguagens para que o ser pessoa possa vivenciar, ler, elaborar e exteriorizar seus conhecimentos sob diferentes possibilidades advindas da arte (as diferentes linguagens sendo utilizadas na educação como condição de propiciar desenvolvimento integral, de corpo inteiro a criança). A importância da Educação no cenário educacional brasileiro está na perspectiva de se entender melhor a realização infantil, o desenvolvimento integral da criança, bem como as reais possibilidades de intensificar a participação da mesma em seus contextos educativos, tornando-a protagonista de seu processo educativo e de seu mundo.
Pré-Texto: Como você avalia a formação dos professores? Quais os compromissos que o educador precisa ter com a criança nas séries iniciais?
Maristella: Penso que muito se tem falado em termos da formação de professores e pouco se tem investido em projetos conseqüentes de formação.
Uma das questões que tem me intrigado muito e que tem direcionado minhas pesquisas diz respeito a seguinte relação: nunca se falou e investiu tanto na formação de professores e se obteve tão poucos resultados em termos de aprendizagem e desenvolvimento do educador e conseqüentemente das crianças. Contradição intrigante decorrente da fusão de vários fatores dos quais eu ousaria destacar:
• A falta de consideração sobre a aprendizagem e o desenvolvimento do adulto que mecanismos são estes e como ocorrem?);
• O entendimento de que a educação, a formação de professores não passa de uma mercadoria e que possa ser vendida sem critérios e de maneira pouco conseqüente no sentido de uma perspectiva mais significativa em termos dos resultados que se busca para a pessoa e a sociedade na qual está inserida;
• A ausência de vontade política para que a educação dê certo e que permita à sociedade a sua emancipação;
• E não poderia deixar de citar a EAD.
Cabe aqui um destaque. Não se pode deixar de relacionar a forte inserção da EAD (Educação a Distância), instrumento que seria fundamental em Estados e localidades com ausência de instituições formadoras na modalidade presencial e que, do meu ponto de vista, poderia ser utilizado em cursos de formação continuada ou contínua em serviço, mas nunca na formação básica, inicial de professores, conforme já o defenderam várias plenárias de importantes eventos em nosso país. Não consigo identificar e creio que as instituições que estão implementando as propostas de EAD não revelam seus compromissos com bases teóricas específicas, além de não identificar em boa parte da produção científica sobre a formação de professores as justificativas para sua implementação como condição de melhoria dos processes formativos e do desenvolvimento profissional docente. Ou seja, ao que parece esta modalidade de ensino semipresencial ou à distância revelam forte interesse na educação enquanto mercadoria, sem que as instituições precisem investir na qualidade das relações interpessoais (característica fundamental das práticas educativas), e nem tampouco em bibliotecas, o que significativa um grande empobrecimento na formação e a implementação de princípios e experiências bastante díspares das que serão propostas às crianças na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental. É fato, ninguém oferece o que não tem, o que não acredita ser importante. Penso que importante o estabelecimento da pergunta: como os professores favorecerão as relações interpessoais, as trocas, as interações, as mediações se estes não foram elementos considerados importantes em seu processo formativo? Quais serão as teorias que estarão fundamentando as práticas, consideradas?
Pré-Texto: Considerando publicação se dirige a educadores, perguntamos: como organizar as atividades individuais e coletivas em séries iniciais?
Maristella: Nas duas modalidades de atividades citadas é importante sempre oportunizar a elaboração, a contribuição singular de cada criança, o reconhecimento de que ela é uma fonte de conhecimento e que tem o que oferecer ao grupo no qual está inserida da mesma forma que dele pode tirar proveito. Ou seja, é preciso que a criança tenha condições, motivação, interesse em participar das atividades e que possa oferecer contribuições a partir de suas próprias elaborações.
O princípio da atividade, tão definido por vários autores clássicos da educa sendo um elemento a ser considerado nas práticas didáticas, nas práticas educativas individuais e coletivas.
Pré-Texto: Jogos, atividades lúdicas, exercícios de linguagem: que outras estratégias o professor pode lançar mão para trabalhar na educação infantil?
Maristella: Inicialmente eu diria precisamos implementar as os exercícios de linguagem que na maioria das vezes fica restrito à linguagem oral e escrita.
Acredito e defendo a necessidade de entender desenvolver a criança de corpo inteiro, como defenderia Ana Angélica Albano (UNICAMP), assim o foco se alastraria para as linguagens musical, cênica, plástica...
Gosto muito de pensar também no trabalha com a literatura infantil, com as aulas passeios, com a proposta de tateamento experimental conforme o proposto por Freinet, estratégias de forte apelo exploratório e por meio do qual as crianças teriam a oportunidade de elaborar e confirmar suas hipóteses na experimentação de mundo. Mas, sem dúvida nenhuma uma das mais importantes questões em qualquer estratégia ou atividade é o cultivo da qualidade nas relações interpessoais “a pessoa e o outro” devem ser sempre respeitados em seu processo de interação, ouvidos e considerados nas práticas educativas e na qualidade a elas impostas.
Pré-Texto: São suficientes os recursos investidos na educação infantil? Faça uma análise das políticas públicas e a gestão de recursos para as séries iniciais?
Maristella: Estamos vivendo um momento de transição no financiamento educacional, é tem,pó de implementação do FUNDEB no sistema público e a ampliação do Ensino Fundamental para nove anos. Qualquer análise poderia ser precipitada neste momento, sobretudo pela disparidade com que a Educação Infantil é tratada em comparação com o Ensino Fundamental. Sabemos que historicamente o dinheiro para a Educação Infantil é irrisório e não tem sido muito bem empregado. Isso ocorre no Ensino Fundamental também, apesar de ter sempre uma determinação orçamentária maior em decorrência de seu caráter de direito público subjetivo, obrigatório de ser oferecido. É importante necessário destacar a possibilidade legal de gestão democrática e a elaboração de projeto político-pedagógico nas instituições e sistemas, pois isso poderá favorecer prioridades em termos de investimentos e um controle maior sobre os mesmos. Preocupação fundamental deverá ser a qualidade nas relações, nos diálogos a serem estabelecidas entre instituições (unidades educacionais), família e até mesmo com a comunidade, definindo de fato a co-responsabilidades diante da educação, bem como a possibilidade de rever a importância das etapas educativas para o desenvolvimento pessoal e da sociedade. Penso que poderemos, caso tenhamos interesse e boa vontade, desvendar uma nova perspectiva para a Educação e para as nossas instituições, formando cidadãos mais íntegros e uma sociedade mais humanitária e culta, com investimentos direcionados e controlados pelos atores educativos que nela estão inseridos.
Pré-Texto: Fale sobre o ensino fundamental de 9 anos: desafios e perspectivas. Maristella: Sou uma fiel defensora da infância e do que podemos realizar com a criança da faixa etária até os seis/sete anos de idade sem formalizar as práticas educativas que podem gerar corpos calados e aprisionados em um corpo que deveria ser liberto. Não sou favorável ao Ensino Fundamental de 9 anos, sobretudo pela ausência de justificativas pedagógicas que o fundamente; também não defendo a utilização do sistema educacional para compensar direitos do cidadão que não estão sendo oferecidos regularmente, políticas públicas que deveriam ser tratadas maneira integrada e que se perdem em ações isoladas e que tendem a descaracteriza o papel da escola em sua essência formativa.
A escola, Ensino Fundamental tem sido imputado um caráter de redenção diante da incompetência política na garantia dos direitos e isso precisa ser revisto. Diante do fato dado da aprovação do Ensino Fundamental de 9 anos precisamos fazer o melhor. Creio que seria absolutamente salutar e enriquecedor para o processo pedagógico que pudéssemos inserir atividades, movimento, participação, lucidade no ensino fundamental, estruturando tempos e espaços para que as crianças pudessem agir, interferir mais e se tornar protagonistas de seu próprio processo formativo.
Quem sabe não conseguimos inserir espaços para a literatura infantil, para as linguagens (musical, cênica, corporal, plástica...), para as descobertas, para o movimento, para a alegria e realização. Adequar as instituições para receber e acolher bem as crianças de 6 anos em suas características e irradiar as boas perspectivas da educação infantil para o ensino fundamental, creio que seja um grande desafio e uma das melhores perspectivas para os mesmo.
Pré-Texto: Gostaria que você definisse que percepção tem do aluno de hoje, da criança de hoje, inserida em uma cultura que valoriza consumo e banaliza a violência.
Maristella: A criança de hoje tem que ser vista como ser humano que está inserido em uma cultura individualista, egoísta, cultura cujos seus membros não têm a dimensão de como seus atos influem a infância e a sociedade de amanhã. De fato, nossas crianças estão passeando em áreas comerciais, assistindo inúmeros programas de TV que as entende como consumidoras, jogando videogames violentos diante de computadores que as imobiliza, dificulta e compromete. -
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Zilma de Moraes Ramos de Oliveira
Zilma de Moraes Ramos de Oliveira
Para a pedagoga, jogar e brincar são recursos essenciais para o desenvolvimento da imaginação, memória e percepção da criança. Doutora em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo, Zilma de Moraes, atualmente, é professora associada da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia do Desenvolvimento Humano, atuando principalmente nos seguintes temas: creche, interação criança-criança e sociointeracionismo
Pré-Texto: Qual é o valor do jogo e da brincadeira para o desenvolvimento da criança no contexto escolar?
Zilma de Moraes: Jogar e brincar são recursos para a criança desenvolver uma série de aspectos em sua constituição pessoal, dentre eles, a imaginação, memória e percepção, e o sentido de si.
Pré-Texto: Muito se fala a respeito do desenvolvimento humano e das ferramentas da Psicologia em relação a ele: os nossos professores têm a dimensão da importância do encontro entre esses dois campos do saber?
Zilma: Penso que a maioria deles tem. O que é preciso discutir é que visão de desenvolvimento eles se apropriaram e como a usam como recurso para orientar sua prática pedagógica.
Pré-Texto: Como se aplica o conceito de “rede significações" dentro desse contexto? Zllma: A perspectiva teórico-metodológica da Rede de Significações (RedSig) é baseada em visão sócio-histórica que pressupõe que o desenvolvimento ocorre a partir de interações que o indivíduo estabelece ao longo de sua vida com parceiros diversos em práticas sociais concretas. Nestas, os parceiros de interação constituem-se reciprocamente enquanto sujeitos, no processo de negociar significados de eventos, coisas, pessoas, lugares, sentimentos
Pré-Texto: Qual é a sua experiência teórica e prática em relação à inclusão de crianças em creches?
Zilma: Orientei alguns trabalhos de pesquisa na área, fui relatora do Parecer 12/99 do Conselho Estadual de Educação de São Paulo que fixou normas gerais para a Educação Especial no sistema de ensino do Estado de São Paulo.
Pré-Texto: O governo federal tem liberado auxílios e programas de valorização da Educação Infantil?
Zilma: São muito insuficientes.
Pré-Texto: Quais são os mais recorrentes problemas nas creches brasileiras? Há caminhos para minimizá-Ios?
Zilma: Um problema fundamental é o da formação dos educadores como professores dentro de uma nova perspectiva de Educação em geral e de Educação Infantil em particular.
Pré-Texto: O que a senhora diria para as educadoras de creche que trabalham no limite de suas possibilidades físicas e psíquicas?
Zilma: Diria que seria importante reavaliar suas condições de trabalho administrativamente (carga horária, número de crianças por adulto, condições do espaço físico, etc.) e pedagogicamente (existência de uma programação discutida e apropriada pelos educadores, a presença de um serviço de coordenação pedagógica como recurso para o professor aprimorar sua prática, uma boa proposta de relação com as famílias).
Pré-Texto: Dentro das muitas rotas de aprendizagem, conte-nos uma experiência escolar que a marcou.
Zilma: Enquanto aluna, muitas foram as experiências que me marcaram. O mesmo ocorreu como professora e pesquisadora. De toda forma, foram experiências que me fizeram atribuir novos significados ao ambiente e para mim mesma.
Pré-Texto: Existe um currículo específico para os professores de pré-esco/a? A senhora julga interessante essa especificidade? O que constaria de um currículo completo para essa finalidade?
Zilma: Há sim aspectos mais específicos e aspectos mais gerais, estes ligados a uma concepção unificadora de educação. Definir um currículo aqui seria algo muito superficial.
Pré-Texto: Como definir a criança que chega cada vez mais precocemente à creche e à escola?
Zilma: Como criança, antes de tudo, e como alguém curioso, buscando aconchego e apoio para significar o mundo e a si mesma. -
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Marcas Da Infância
Eva Furnari
Eva Furnari nasceu em Roma, Itália, e veio para o Brasil com apenas dois anos de idade. Costuma dizer que, desde criança, sentia-se encantada com as figuras dos livros e sua distração era desenhar e pintar. Formou-se em arquitetura, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi professora de desenho, pintura, escultura e gravura no Atelier de Artes Plásticas do Museu Lasar Segall e ilustradora em diversos jornais e revistas. Sentindo-se atraída pela literatura infantil, começou a criar a “ilustração narrativa”, destinada a crianças bem pequenas. Esses primeiros trabalhos foram lançados na coleção Peixe Vivo, da Ática. De lá pra cá, são inúmeras as publicações de Eva Furnari, como ilustradora e escritora. Nos últimos anos, aventurou-se pelo teatro e, juntamente com a Companhia Truks, levou ao palco sua personagem mais famosa: a Bruxinha!
Pré-Texto: Fale de sua infância e de como ela permanece viva nas suas histórias.
Eva Furnari: Sem dúvida nenhuma a infância nos deixa marcas para a vida toda. Eu fui uma menina calada e tímida que entendia o mundo muito mais pelo olhar que pelas palavras. Essa foi uma das marcas que permaneceram fortes no meu trabalho, nas histórias sem texto. A outra coisa que me lembro eram as longas discussões entre meus dois irmãos mais velhos, que hoje são engenheiros, mas na época eram cientistas-filósofos. Discutiam de tudo: matemática, física, filosofia, literatura, artes e também, porque não, sobre Deus e o sentido da vida. Lembro que uma das polêmicas era se as pessoas enxergavam as cores da mesma maneira. Será que o vermelho que um enxerga é igual ao do outro? Essas “termináveis discussões, nas quais eles nunca estavam de acordo, eram, de certa maneira, uma matéria prima fértil para mim, um grande caldeirão onde eu mergulhava com minha fantasia e imaginação. Eu acompanhava atenta essa competição de duas mentes brilhantes que se desafiavam no pensar lógico e estruturado da ciência e na sensibilidade da intuição. Sem dúvida, essa escola foi fundamental para minha formação e para meu ofício posterior de escrever e ilustrar livros.
Pré-Texto: Como é o seu processo de criação?
Eva: Só se pode intuir, desconfiar e até inventar algum jeito de cortar como se dá a criação. Mas explicar mesmo, direitinho, não se explica.
Creio que cada pessoa tem um processo particular. Para mim, esse processo exige concentração e isolamento. É necessário que eu preste atenção para fazer uma espécie de conexão com o mundo interior. É como se nesse momento eu tomasse um caminho que leva ao universo dos sonhos. Mas é algo nebuloso que não se pode definir e nem explicar tão bem.
Pré-Texto: De onde vêm tantas bruxinhas charmosas e de que modo você acredita que elas cativam o público?
Eva: Ás vezes eu tenho a impressão que os seres que habitam o tal universo dos sonhos é que escolhem a gente e não vice-versa.
Quem sabe foi a Bruxinha quem me escolheu. Já imaginaram? Se for assim, tenho a maior admiração e orgulho, não só da amizade dela, mas também de ser a pessoa que pode retratá-Ia com meus desenhos para que todos possam vê-Ia. Talvez a Bruxinha cative o público por ter essa característica tão humana de ser atrapalhada e também de ter o poder da magia. Quem é que não deseja transformar o mundo ao seu redor? Na verdade o ser humano também tem a capacidade de se transformar, tanto para o bem como para o mal. Graças a Deus, a Bruxinha é do bem.
Pré-Texto: Qual é a importância da literatura para a formação da criança?
Eva: Acho que a literatura reúne qualidades que podem ajudar muito nos processos educacionais. Através dela pode-se ensinar a ler e escrever, pode-se desenvolver as capacidades lógicas e críticas e também passar os valores humanos tão necessários na formação da criança. Uma das características que constitui a literatura é que seus conteúdos são passados não só de maneira racional, mas também emocional, fato que promove um envolvimento muito mais abrangente e efetivo.
Pré-Texto: Como suas histórias são recebidas pelos leitores mirins e adultos? Conte alguma experiência Pedagógica interessante desenvolvida a partir de uma obra sua.
Eva: Sinto que minhas obras são muito bem recebidas pelos adultos também, como se elas não fossem só para crianças e isso me dá uma grande alegria.
No livro "Nós" da Editoral Global, uma professora fez um trabalho com as crianças que achei genial. A proposta era fazer colagem de borboletas sobre dois painéis de papel craft. No primeiro as borboletas deviam ser todas iguais. No segundo a professora distribuía materiais bem variados e pedia que cada aluno fizesse a borboleta que quisesse, estimulando uma produção bem personalizada, (borboletas grandes, pequenas, fortes, delicadas, coloridas, escuras, etc.) Depois acontecia um debate diante desses dois painéis sobre a riqueza, alegria, fertilidade do painel com borboletas variadas e a pobreza do painel as borboletas todas iguais. Achei esse trabalho muito interessante para provocar a aceitação das diferenças e a diminuição dos preconceitos e da discriminação que tanto sofrimento podem causar.
Pré-Texto: A leitura é uma espécie de felicidade como dizia Jorge Luís Borges?
Eva: Para alcançar essa felicidade é preciso escolher os bons livros. Num bom livro, com certeza, a leitura é uma grande felicidade e vai além, ela pode nos tornar mais humanos quando partilhamos de maneira estética nossas alegrias, nossas dores e nossos saberes. -
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Fascinada Pelo Computador
Ângela Lago
Ângela Lago nasceu em Belo Horizonte, já morou na Venezuela, na Escócia e faz vinte anos que escreve e ilustra livros para crianças. Expôs seus trabalhos em muitos países e teve livros publicados até no Japão. Ganhou prêmios na França, Espanha, Eslováquia, Japão e Brasil, inclusive o Jabuti, com o ABC Doido. Única ilustradora brasileira selecionada para integrar uma obra que reúne autores de vários países, Anela recebeu uma homenagem especial da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil durante o 6.º Salão FNLIJ do Livro para crianças e jovens no MAM. Foi a primeira ilustradora do país a montar uma homepage (www.angela-lago.com.br) que não pode deixar de ser visitada, principalmente pelas crianças!
Pré-Texto: Como surgiu o desejo em trabalhar com a ilustração de livros para crianças e jovens?
Angela Lago: Quando estudava desenho gráfico em Edimburgo escolhi alguns contos de fada para fazer meu trabalho final em ilustração. Sempre gostei de contos de fada. Acho que foi então que decidi contar e desenhar histórias para crianças, de maneira a aliar duas atividades que já vinha exercendo: escrever e pintar.
Pré-Texto: A contemporaneidade trouxe uma soberania da imagem em relação às demais linguagens. No entanto, sabemos que somos, a maioria, analfabetos visuais. Como a ilustração do livro para crianças e jovens contribui' na formação do leitor crítico de imagem?
Angela: A leitura de um livro com imagens implica em reconhecer os signos que denunciam o caráter dos personagens, o significado das ações, e a seqüência da história através das páginas. No livro, de uma maneira diferente de outras mídias como a televisão ou o cinema, o tempo de leitura das imagens é estipulado pelo leitor, o que pode favorecer – não obrigatoriamente – um olhar mais reflexivo. Além disso grande variedade de estilos das , ilustrações nos livros para criança pode, quem sabe, ajudá-Ia a sofisticar sua apreciação estética.
Pré-Texto: Em seu livro O Cântico dos Cânticos, poema visual sobre o amor inspirado no texto bíblico de mesmo nome, você utilizou as iluminuras (desenhos utilizados na idade média para ilustrar os livros religiosos). Em seu livro Cena de rua, onde apresenta a condição assustadora e desumana da criança de rua, você utilizou o expressionismo (linguagem artística que enfatiza a emoção). Em A raça perfeita, para discutir a manipulação genética, você utilizou a manipulação digital. Qual a importância de usar a expressão plástica como metáfora do tema abordado?
Angela: Foram escolhas intuitivas. Convinham ao tema, favoreciam o clima da história.
Pré-Texto: O humor é uma característica marcante na maioria dos seus livros. Qual a importância do humor na literatura para crianças e jovens?
Angela: Não acho o humor necessário no conto para a criança. Os contos de fadas são dramáticos e são perfeitos. Ter que vencer medos, bruxas e dragões para ir de encontro à grande aventura amorosa não é tarefa para risos. Mas as crianças adoram estes contos e com razão: são pérolas. Alguns livros infantis contemporâneos pecam por um excesso de humor, muitas vezes dirigidos mais para o leitor adulto do que para a criança mesmo. Parece que os escritores e ilustradores se envergonham do que falam ou desenham e precisam fazer gracinhas. Espero que o humor que por acaso me escapa não tenha nada a ver com isso.
Pré-Texto: Já faz tempo que você utiliza programas gráficos para produzir suas ilustrações. Como é sua relação entre a "cyber-prancheta" e a prancheta convencional? Você acredita que há uma tendência dos ilustradores largarem o lápis e o pincel e aderir definitivamente à produção de imagens através dos programas gráficos?
Angela: Imagino que cada ilustrador continuará a escolher o suporte da sua preferência, pois não importa nada para a criatividade e beleza do seu trabalho se seus pincéis são pincéis convencionais ou digitais. Caso faça seus desenhos sobre o papel ou tela, em algum momento seu trabalho será levado para o computador para ser conjugado com o texto. Se o ilustrador domina também os recursos de diagramação a possibilidade de fazer um livro onde imagem e texto se relacionem de uma maneira mais criativa fica evidentemente maior.
Eu continuo fascinada pelo computador. É a primeira coisa que ligo assim que acordo. Acho difícil até pensar sem ele. Mas isso é um vício, não um mérito.
Pré-Texto: Seu site (www.angela-Iago.com.br) tem uma particularidade que chama a atenção: além de instrumento de divulgação de seu trabalho, comum aos demais sites, tem um foco na educação. Espaço para professores, com oficina, artigos, bibliografia, e espaço para as crianças, com brincadeiras, adivinhas, tangolomango, e outras atividades lúdicas. Como você vê a relação do ilustrador do livro para crianças e jovens com a educação, com a formação da criança e do professor leitores?
Angela: O espaço para professores no meu site só apareceu recentemente e porque havia uma demanda neste sentido. Mas não dissocio prazer de aprender. Um tangolomango é divertido e nos ensina os números, mesmo que de trás para frente. As adivinhas são em geral desafios a maneira convencional de pensar. Brincamos para aprender. Um ilustrador sabe disso, pois se não brincar seu trabalho não acontece. Ele ensina através do seu trabalho que precisamos a cada momento aprender e reiventar o mundo através da nossa própria criatividade. -
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Poesia: Um Espaço de Liberdade
Roseana Murray
Uma autora que encontra inspiração na própria infância, nas conversas com a criança solitária e sonhadora que foi
Seu primeiro livro de poesia foi Fardo de Carinho, em 1980. Roseana Murray é autora de várias obras para crianças, entre elas os livros de contos O Buraco no Céu, Retratos, Uma História de Fadas e Elfos e um Cachorro para Maya. Conquistou, em 1990, o prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo livro Artes e Ofícios, e em 1993, o prêmio Luiz Jardim – Menção Honrosa, concedido pela União Brasileira de Escritores para o livro O Fio da Meada. Roseana Murray é uma das principais autoras contemporâneas de poesia infantil; seus livros mais recentes são Jardins, Manual da Delicadeza e Caminhos da Magia. Recentemente lançou um e-book ilustrado, Babel, um conto de Natal, no site Doce de Letra, sendo o primeiro e-book ilustrado do Brasil!
Pré-Texto: Fale da presença de sua infância em sua obra.
Roseana Murray: Minha infância se passou na década de 50, dentro do Sítio do Pica-pau Amarelo. Fui uma criança solitária e sonhadora. Acho que é com esta criança que eu converso quando escrevo.
Pré-Texto: Em que medida o verso educa, sensibiliza e elabora novos sentidos na sala de aula?
Roseana: A poesia expande a consciência, trabalha com o abstrato, faz voar. A poesia é terapêutica.
Pré-Texto: Qual a contribuição da poesia para o trabalho do professor em sala de aula?
Roseana: A poesia é a janela aberta por onde entra o ar. O professor deve lutar por este espaço de liberdade.
Pré-Texto: Narre uma experiência pedagógica desenvolvida a partir de um livro ou poema seu.
Roseana: Meus livros são trabalhados em todo o Brasil. Em Arraial do Cabo R.J, um Clep fez instalações a partir dos meus poemas. Montou até uma padaria com as crianças fazendo um pão de verdade! A poesia oferece infinitas possibilidades.
Pré-Texto: Como a leitura pode ser vivenciada no cotidiano escolar? O que são as rodas de leitura?
Roseana: A leitura não pode ser um evento, ela tem que ser cotidiana, como um alimento. As rodas têm um leitor guia, um texto que os adolescentes acompanham e se possível devem ser vivenciadas fora da sala de aula. Depois da leitura do texto, o leitor guia discute o texto com os jovens leitores.
Pré-Texto: Qual é a importância da leitura para a formação do aluno?
Roseana: A leitura é a atividade humana mais importante para a formação do ser. Deveria vir sempre em primeiro lugar e não teríamos as estatísticas tão tristes ano após ano. Nossas crianças e jovens não estão entendendo o que lêem. -
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As Fontes Inesgotáveis do Artista
Heloísa Pires de Lima
A antropóloga escritora Heloísa Pires de Lima criou e foi editora da Selo Negro Edições. Escritora premiada com a obra Histórias da Preta, Cia das letrinhas (1998). Coordenadora da coleção Orgulho da Raça (1995) e outros é pesquisadora da imagem negra nos livros infanto-juvenis!
Pré-Texto: Como foi a sua infância e qual é a força dela na sua obra?
Heloísa Pires de Lima: As vivências da infância, as sensações, emoções, os repertórios com os quais entramos em contato são fontes inesgotáveis para todo artista. Eu cresci numa casa de madeira cujo quintal tinha abóboras, xuxus na cerca, parreira de uvas, tinha milho que meu pai plantava cenoura, tinha grilo na grama, lesmas que construíam caminhos brilhantes, vagalumes com quem conversava à noite de minha janela. A rua de paralelepípedos tinha a casa dos poloneses, dos italianos, dos cariocas, dos holandeses, russos, enfim, eu vivi o multiculturalismo através dos filhos dessas culturas todas. Na ponta da rua havia um terreno que, por décadas, moravam ciganos com suas tendas e tachos de cobre que reluziam direto na minha curiosidade. Bem, já deu pra sentir a força?
Pré-Texto: Como foi a sua trajetória de editora a autora? Qual dos dois papéis é mais prazeroso?
Heloísa: Eu sinto um prazer imenso em trabalhar em equipe. O trabalho como editora envolve a parceria de ouvidos, de acompanhar a forma na arquitetura do texto alcançada pelo autor e para a qual, sutilmente, lançamos desafios. Auxiliar a lapidar conceitos, a explorar resultados visuais, espiar a produção de diversos países, conhecer o público dos diversos Brasis fazem parte desse compromisso. É o prazer de parir um autor e no meu caso, de um selo editorial. Entre 1998 e 2001 eu criei e fui editora da Selo Negro Edições vinculada ao Grupo Summus Editorial. Meu projeto foi selecionado por Miriam Leirner a a pedido de Raul Weisssermann, presidente do grupo. Tenho certeza que ele cumpriu seu trabalho de dar visibilidade à particular presença negra, tão ausente no circuito editorial brasileiro. Como autora, o prazer rebate no privilegio da criação e no tanto de estímulos que a seguem. Os presentes, as viagens, o carrinho do leitor, prêmios, são reconhecimentos conquistados por nossos personagens de papel, mas é nossa carne e ossos que usufruem.
Pré-Texto: De que modo você vê a leitura no contexto das práticas escolares? De que modo é possível melhorá-Ia?
Heloísa: Primeiro o diagnóstico. É preciso conhecer o que a criança gosta de ler espontaneamente, o que o educador leu e lê. Sem isso, não é possível seguir com a análise desse diagnóstico com a perspectiva de uma ação educativa eficaz. Acertar na prática da leitura, do gosto, da compreensão do texto, com questões envolvendo repertórios, abordagens, etc, implicam numa dedicação a projetos com esse foco. Este pode ser contemplado numa escola, em particular ou no âmbito de uma política pública mais geral. É importante conhecer o leitor, a leitura oferecida, os resultados dessa leitura para conhecermos nossa sociedade frente às demais linguagens em circulação.
Pré-Texto: Em que medida as histórias da Preta deslocam e subvertem sentidos dominantes sobre preconceito e racismo?
Heloísa: A Preta inova desde a capa. Como protagonista, a Preta construiu uma estrutura que procurou fugir de estereotipias. Houve o cuidado da ilustradora Laurabeatriz, com a cor da pele (que não é o preto literal) com a expressão da face (que não é idiotizada) o que acabou apresentando ao leitor uma figurinha muita digna, enquanto modelo de humanidade. Estou falando de narrativa visual que informa tanto quanto o texto escrito. O cuidado da editora, a Cia das Letrinhas, continuou por todo o cenário gráfico o deu a exata medida do que eu pretendia com a obra. As subversões presentes nos assuntos encadeados, fizeram parte da proposta editorial que, na época tinha tanta carência de material nessa direção o que levou a Preta, a dar conta de temas tão diversos. Racismo e preconceito são assuntos que geram defesas iniciais e fechado não se aprende nada. Então, tanto nos meus textos, quanto palestras e oficinas sensibilizo, primeiro, o coração que desmancha defesas e não aciona culpas. Dessa forma, introduzo questões que considero importantes para uma inversão cultural necessária relacionadas a práticas anti-racistas, sobretudo no ambiente escolar. E ela precisa ser percebida, ou seja, o educador precisa enxergar e julgar, de verdade, internamente, uma lógica perversa. E aí, o sistema educacional de excelência, precisa oferecer material de apoio adequado para o trabalho.
Pré-Texto: Comente um dos seus livros e narre uma experiência pedagógica interessante desenvolvida em escolas a partir dele.
Heloísa: A Semente que veio da África (2005, Salamandra) é uma obra que têve como objetivo, conversar com a África, mais do que sobre a África. O repertório central, a árvore milenar que vai mudando de nome (baobá, embondeiro, barriguda no Brasil e adansônia pelos cientistas) oferecia muitas entradas para o trabalho em sala de aula. Além do contato com a narrativa africana, escrita por Georges Gneka da Costa do Marfim e Mário Lerros de Moçambique, cada qual com uma versão sobre histórias em torno da mesma árvore, acabei descobrindo que há um jogo lógico-matemático, também milenar que se joga por todo o continente. Assim, o awalê, como o chamam na Costa do Marfim, pode ser aprendido pelas crianças brasileiras pois as regras fazem parte da obra. Muitas escolas que o adotaram, o colégio Vértice, por exemplo, as crianças construíram desde o tabuleiro com caixas de ovos, desenvolveram pesquisas sobre brincadeiras e músicas de diferentes regiões africanas, e nas artes plásticas fizeram releituras de desenhos de Véronique Tadjo, a ilustradora da obra que vive na África do Sul. Eu enviei esses trabalhos para os autores de lá e eles devem responder possibilitando uma vivência entre essas áfricas e o Brasil. Aliás, algumas crianças de Moçambique que estão na obra, ensinam as crianças brasileiras outro jogo com as sementes da árvore. Possivelmente, essas crianças de lá continuarão conversando com as de cá. Também fui à Martinica e Guadeloupe, no ano passado, apresentar o Brasil para as crianças de lá. Estas são duas ilhas que ficam no Caribe e, basicamente de população negra mas, são territórios franceses além mar. Foi o ano do Brasil na França e daí veio o convite. Também estou desenvolvendo a conversa entre as crianças de lá que pesquisam sobre o Brasil, sobretudo a literatura, e as crianças daqui que não olham para o Caribe, apesar da proximidade cultural. Devemos colocar essas escolas em contato por teleconferência.
Pré-Texto: Qual a importância do professor para desmistificar certas imagens e dizeres naturalizados como únicos e absolutos?
Heloísa: Uma dos textos que escolhi para entrar numa coleção que coordenei, foi justamente o de uma professora que, habilmente contornou uma situação de racismo. Ao perceber a dificuldade de uma menina negra vinda da Nigéria, sua aluna na educação infantil, ela inventou uma história de princesa cujo nome era o mesmo dessa menina em dificuldade, inteligentemente, a história incorporou referências a uma expressão de bom dia na língua que só a aluna sabia falar. Assim, de um jeito singelo, ela centralizou a criança, valorizou-a e ainda a referência de sua origem. Ao mesmo tempo, trabalhou a auto-estima e a valorização positiva do referencial África. Quando conheci o texto e a história atrás do texto, publiquei-o. Isto quer dizer, que as soluções cotidianas são poderosas. -
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Uma Tecelagem de Autoras
Prof.ª Dr.ª Lucília Maria Sousa Romão - USP/RP
O Congresso de Literatura Infanto-Juvenil "Vozes femininas tecendo a ficção”, marcado pela presença de Eva Furnari, Ângela Lago, Roseana Murray e Heloisa Pires, apresenta vozes promotoras de espaços de criatividade e invenção. Trata-se do encontro de quatro tecelãs, que entrelaçam as palavras como fios no grande tear das histórias que estão por narrar e que tomam a(s) histórias (s) como possibilidade de provocar deslocamentos para regiões inesperadas, desarranjo nos sentidos naturalizados e convite ao prazer da escuta e da leitura. Na obra literária (e hoje é preciso ressaltar que muitos dos títulos dispostos no topo dos mais vendido os não têm parentesco com a qualidade), há que ter dor e delícia em conflituosos pespontos, há que estar presente a falta constitutiva do humano, há que fazer cambalhotas com o senso comum, desafiando aquilo que já se cristalizou como única possibilidade de ler, enxergar e interpretar.
Nesse sentido, a voz dessas autoras indiciam movimentos inaugurais na apresentação dos personagens, temas e figuras, compondo rotas do que Sara mago chamou de 'a viagem do descobrimento'. Nos quadrinhos da bruxinha curiosa, acompanhada por seu gato e pela vontade de experimentar outras formas, instala-se a desobediência à aceitação da realidade como ela se apresenta: quanto de verdade há na varinha de condão daquela pequena personagem! Nos nós amarrados no estômago, na garganta, na cabeça, nos dedos, nas pernas, a voz da autora toca os limites do humano, fazendo circular figuras coloridas e grandiosamente contornadas pelo movimento de suas fragilidades. O cocô de passarinho em vários chapéus, igualmente alegres e coloridos, compõe um cenário em que a diferença e a singularidade materializam-se como permitidas de serem vistas, desenhadas e ditas. Nas lentes esquecidas pelo anjinho, que sai do céu em sua ingênua busca por um sapatinho perdido, estão manifestas as várias possibilidades de leitura da realidade, o desfocamento da nitidez, a imaturidade para lidar com monstros simbólicos e imaginários e a orfandade da voz materna, tão digna de coloca linguagem onde o caos parece se instalar. Tantas são as histórias de Eva e as possibilidades de trabalho com seus livros em sala de aula!
O namoro com a obra de Eva Furnari, mais de quarenta títulos publicados e dezenas de trabalhos como ilustradora, deriva da leveza de seu traço, das metáforas de suas histórias e da sutileza com que toca temas cotidianos com profundidade, sem idiotizar o leitor infantil (e adulto). Os nós no corpo dos personagens, as lentes do anjinho perdido na terra, as estripulias da doce Bruxinha com seu gato e com o Godofredo, a diversidade dos cocôs de passarinhos, a trajetória do Lolo Barnabé, a vaidade da Ritinha Bonitinha, o medo da menina diante do dragão, os jogos de adivinha: em todos eles, a profunda consideração de que, na literatura, é possível falar usando palavras sob palavras, promovendo o gozo de dizer aparentemente de uma coisa para significar outra, deslocando fronteiras de significados.
Ângela Lago também escreve com traços e desenha com palavras. É autora de imagens que constroem histórias e traçam percursos de sentido sem precisar do ornamento de letras. "Cena de rua" encerra os sentidos de que é possível escrever e ler muito nas imagens. Lê os detalhes do desenho, formando, ora com a mão e com os pincéis debruçados no papel, ora com os dedos no computador, imagens de personagens instigantes: a Banguelinha, síndica do prédio a aterrorizar os moradores é toda ternura, até mesmo em sua rabugice, As acrobacias de Eva permitem ao príncipe dizer que as palavras, em suas estranhas fendas, guardam a possibilidade de dizer outras coisas, o Litros sons, outros significantes. As histórias que fazem sacudir o esqueleto misturam medo e humor, permitindo que cenas com personagens-esqueletos façam rir da carcaça humana. Tampinha encontra-se com personagem do folclore em narrativa com ritmo e graça. No ciberespaço de Ângela Lago, outros modos de rir fragmentos de narrativas, desenhos e passinhos de um anjinho que cai do céu e se afoga em um lago: uma voz de delicadezas no escrever.
Roseana Murray escreve poemas singelos, anuncia classificados originais, fala de bichos, descreve forças da natureza e sentimento humanos. Tem a graça de sugerir e deixar que o leitor construa a sua própria tessitura a partir de metáforas sugestivas, de versos ritmados sem excessos e com tonalidade de profundezas.
Heloisa Pires ressignifica, em várias de suas histórias de Preta, os modos como as narrativas e a voz africanas foram deslocadas, sabotadas e interditadas pela voz do branco, silenciadas a criatividade, a sedução e a singeleza. Desse imenso corpo chamado África, ele recupera outros fios de dizer, outros modos de contar as tradições, outros efeitos de entender a cor da pele. São vários os momentos em que há profundidade oceânica em apenas uma frase: a avó de cabeça branca cortando mudinhas no jardim fala, com voz sabida e pausada que só responde a pergunta da neta sobre a cor das pessoas se a neta dizer "quem inventou o nome da cor das pessoas”. Em diálogos assim curtos, em cenas do cotidiano escolar, em batuques de candomblé, em movimentos de capoeira, a autora vai desenhando a beleza de um continente distante e ainda adormecido nos trabalhos escolares de história e de cultura. Ao escrever “A Semente que veio da África”, um passo na direção de fotografar e registrar visualmente cenas de brincadeiras, árvores, paisagens da raiz africana, narrando-os como semente, poderosa semente germinada no país! -
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Um Professor Inesquecível
Há professores que marcam a infância e a adolescência e tornam a escola um lugar especial, com um ensinamento enriquecedor, que vai além das disciplinas. Pré-Texto pediu aos convidados do II Congresso Regional de Literatura Infanto-Juvenil uma definição do professor inesquecível. Veja o que eles responderam.
"Não sei... O que determina alguém maravilhoso? Há tantas formas de se ser maravilhoso... Nenhum professor é Deus mas todos os professores estão mais próximos de Deus do que o restante da Humanidade, porque todos eles são anjos."
Pedro Bandeira
"Creio que cada um de nós sabe quem foi (foram) seu(s) professor(es) inesquecível(eis); no meu caso, foram professores de literatura, é claro. Suponho, pois, que ele ou eles tenham a ver com nossas próprias eleições profissionais. Livros inesquecíveis povoam nossa trajetória existencial: Lobato, Dostoievski, Simone de Beauvoir, Clarice Lispector – eis autores que fizeram minha cabeça e que, portanto, não posso deixar de citá-Ios, sempre que tenho oportunidade para tanto."
Regina Zilberman
"Um professor inesquecível me parece ser aquele que reconhece o aluno como um sujeito que deve ir além do mestre. O professor deve dar passagem ao aluno para que ele construa o que ainda está por ser feito. Deve abrir as portas e convidar o aluno a desbravar seu caminho, movido pelo seu desejo".
Bartolomeu Campos Queirós
"Uai, eu escrevi sobre isso ... lnventei, convidei gentes e pedi que participassem de uma antologia com este título. Meu professor inesquecível... foi publicado pela Editora Gente e está ainda em catálogo... Só dar uma olhadela para sentir o que eu senti e procurei, e o que meus convidados elejeram..."
Fanny Abramovich -
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Sonhos e Novos Mundos
Participantes do II Congresso Regional de Literatura Infanto-Juvenil encontram definições para a leitura dos livros e da importância de ler.
“Para formarmos alunos críticos e cidadãos, necessitamos do 'mundo' para conhecer um pouco 'do que é viver'; porém, nem sempre poderemos vê-Io no concreto, mas sim, através do 'mundo' dos livros e da imaginação – onde também estarão inseridos nossos sonhos, desejos, fantasias, verdades, mentiras etc, portanto, a leitura instiga e exercita a imaginação, e com isso a certeza de que tudo vale a pena (se a alma não é pequena) na construção de um mundo melhor!!! Sonhar, imaginar, fantasiar tem que fazer parte da nossa vida! Viva a leitura! E concretiza seus sonhos!”
Cristiane Cordeiro
“Partindo do principio que ler é ampliar o conhecimento, criar, fantasiar, interagir e imaginar, ler também passa a ser o desenvolvimento da capacidade de resolução de problemas – através da busca e interação das situações desafiadoras – contando com ações afetivas. Ler emancipa; da autonomia intelectual. Eleva a alma!”
Célia Beatriz da Silva
“Ler é descobrir novos mundos, buscar o que não podemos ver, é poder voltar-se para si e saber o que pode ser certo ou errado, é aprender a transformar opiniões. Ler é poder tudo, quando se quer mudar.”
Elisabete C. Tina
“A leitura abre horizontes amplos não só para crianças, mas também adultos, que descobrem o universos da leitura 'mais tarde' e assim aprende a ser cidadão e crítico no seu próprio mundo, à exemplo da Fanny Abramowch com a segurança do seu pódio.”
Luciana C. de O. Mendonça
"A leitura nos leva ao mundo dos sonhos e das diferenças, ao encontro do caso e do acaso, do certo e do errado, da prudência e da arte. Somando estes pontos, com certeza estaremos formando cidadãos críticos e capazes.”
Jucimara Simões
“A importância da leitura significa: viajar sem sair do lugar, sonhar sem dormir, sem contar o que tantas palavras conseguem fazer na vida dos alunos; mostrar a eles um mundo onde eles não vão, mas que chegam a eles.”
Luzia Florinda de Lourdes Silvestre Carrieri
"A leitura se faz importante durante toda a vida do indivíduo. É através dela que aprendemos a: ler, escrever, falar, ouvir, ser, viver...
Precisamos mostrar aos nossos alunos que eles só aprenderão a viver, ser, julgar, ler, escrever, falar, ouvir se tomarem o 'gosto' pela leitura, pois só ela abre o caminho da sabedoria de como viverem como verdadeiros cidadãos.”
Stephânia Cottorello Vitorino
“A leitura amadurece as idéias, materializa os sonhos e nos transporta para um mundo em que só o leitor pode distinguir.”
Gomes Presotto
"Para termos alunos críticos e cidadãos precisamos incentivar a leitura para que nossas crianças, futuros adultos, sejam capazes de discernir, discutir e opinar sobre o que é bom ou não para a nossa sociedade.”
Gonçalves Cosenzo
"A leitura informa, abre horizontes, viaja na imaginação e dá oportunidades inúmeras para formação de opiniões ao leitor."
Sueli M. M. Carbone
"É através dos livros que o homem tem acesso a outros mundos, viaja, sem sair do lugar, por um universo de culturas, conhecimentos, precisando apenas de vontade e disposição para ter vários 'mundos' ao seu alcance."
Márcio Fabiano Monteiro
“A leitura é o caminho para a arte do pensar. Através dela, a criança descobre o mundo e aprende a questioná-Io. Concluindo: eu só transformaria a pergunta numa afirmação.”
Rosamari Aparecida C. Fernandes
“Ressaltarei a importância da leitura, usando uma metáfora: ‘é um coração pulsando que recebe e dá a vida' e a vida sem o coração não existe, nem o receber e o doar. A leitura oferece este tesouro de valor incalculável aos nossos alunos; questionando e praticando a solidariedade.”
Elisa Helena Meleti Reis
“A leitura desperta nos alunos a compreensão e a capacidade de entendimento de portadores de textos, sem o qual seria impossível qualquer ser humano exercer sua cidadania com olhos críticos e atentos para a vida”
Helena Regina Tafuri Milaiu
“A leitura promove a curiosidade intelectual, cria hipóteses, relaciona conhecimento, estimula o pensamento e a formação do caráter humanístico, requisitos necessários e importantes para desenvolver a inteligência critica, exigida século XXI.”
Marlene Toniati Garavelo
“É através da leitura adquirimos diversos tipos de cultura, conhecemos nossos direitos e deveres, além de formarmos alunos críticos com leitura de temas diversificados, tornando-os cidadãos conscientes pelos seus pensamentos e futuras atitudes. Temos que apresentar o mundo da imaginação e da fantasia para formar o senso crítico de futuros cidadão.”
Márcia Prado
“A leitura abre caminhos para o conhecimento e suas formas. Assim aluno se torna crítico e ao mesmo tempo cidadão, tendo bases para uma dialética entre as questões presentes numa sociedade”.
Mariana Calaon Criscolin
“A leitura, antes de mais nada, amplia também o universo cultural das crianças proporcionando ‘ferramentas’ e ‘instrumentos’ para reflexão, diálogo e mudanças de postura.”
Renata C.C. A. Ferreira
“A leitura desde os primórdios é a base para viver em sociedade. Leitura é vida, viver sem leitura é tirar o encanto da vida.”
José B. M igtritta
“A leitura abre um universo de possibilidades para se pensar o mundo. Somente conhecendo outras realidades, outros pensamentos, é que podemos comparar e refletir sobre a nossa posição no mundo, e a partir daí, tentar mudá-Io.”
Elisabete Maria Gaban Passalacqua
“A formação de alunos e cidadãos só ocorre quando as mais diversas formas de leituras são realmente valorizadas. O mundo não é lido apenas por imagens representadas por letras e números. Toda a imagem, tudo deve ser lido. O mais importante é tornar alunos leitores do seu próprio mundo.”
Selso Silva
“Fundamental, pois os tendo contato com a leitura começam a 'viajar' na sua intrapessoal e assim melhora sua interpessoal dando razão a suas próprias opiniões!”
Cláudia Siqueira
“O aluno que lê amplia sua visão de mundo, por isso, constrói conhecimentos relacionados a educação, saúde, economia, política... tornando-se assim um cidadão crítico.”
Mariângela Felix Pereira
“Hoje, para que sejamos cidadãos interagidos, é necessário que estejamos aptos à leitura universal, É nós, professores, após toda esta compreensão dos escritores Pedro Bandeira, Fanny e Regina Zilberman levaremos aos nossos educandos a motivação à leitura. Uma, leitura do real e do imaginário, crianças transformando o seu duro cotidiano em um mundo mágico. 'A criança será o centro deste seu universo interior’”.
Lidiana Favareto Marques